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Colonização

A exploração dos recursos energéticos na África

Publicado em 24 de novembro de 2025

A exploração dos recursos energéticos na África

Um continente rico como poucos, mas cujas riquezas energéticas continuam a ser, em grande parte, uma história de promessas não cumpridas, desigualdades gritantes e luta pela soberania.

A África não é apenas o berço da humanidade – como já explorámos em profundidade em artigos como África: O Berço da Humanidade e Primeiros Passos da Humanidade –, é também um dos maiores reservatórios de recursos energéticos do planeta. Petróleo, gás natural, carvão, urânio, hidrelétricas de dimensão continental e, cada vez mais, um potencial solar e eólico quase ilimitado. No entanto, desde a era colonial até ao neocolonialismo atual, a exploração destes recursos tem sido marcada por violência, assimetria e, muitas vezes, por uma continuada dependência externa.

Este artigo é uma viagem longa e detalhada por essa história – da febre do petróleo na Nigéria dos anos 1950 até aos mega-projetos solares do Marrocos e da África do Sul em 2025.

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Durante séculos, a verdadeira “energia” que moveu impérios africanos foi o comércio transaariano de ouro e sal, como contamos em Grandes Rotas de Comércio Transaarianas e O Comércio de Ouro e Sal no Oeste. Os reinos de Gana, Mali e Songhai enriqueceram controlando esses fluxos energéticos (na forma de calorias humanas e animais). Quando os europeus chegaram, o modelo mudou: passou a ser extração em massa para exportação.

A descoberta comercial de petróleo na Nigéria em 1956 (campo de Oloibiri) marcou o início da era moderna. De repente, países como Nigéria, Angola, Argélia, Líbia, Gabão e, mais tarde, Guiné Equatorial, Chade, Sudão do Sul e Moçambique entraram no clube dos produtores. Mas, tal como no período colonial analisado em Exploração dos Recursos Naturais e Exploração do Petróleo e Gás Natural, a riqueza raramente ficou em África.

A “Maldição dos Recursos” em Números e Sangue

  • A África possui cerca de 8 % das reservas comprovadas de petróleo e 7 % de gás natural do mundo, mas recebe menos de 3 % da renda global gerada por esses hidrocarbonetos.
  • Na Nigéria, o Delta do Niger produziu mais de 40 mil milhões de barris desde 1958. Ainda assim, 60 % da população local vive com menos de 2 dólares/dia e a esperança de vida não chega aos 55 anos.
  • Angola é o segundo maior produtor da África subsaariana, mas foi o país com maior desigualdade do mundo em 2023 segundo o Banco Mundial.

Estes números não são acaso. São o resultado de contratos leoninos assinados nos anos 60-90, corrupção endémica, falta de transferência tecnológica e, em muitos casos, apoio ocidental a ditaduras que garantiam o fluxo contínuo de crude.

As Grandes Petrolíferas e o Legado Colonial Continuado

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Empresas como Shell, TotalEnergies, ExxonMobil, Chevron e ENI dominam o setor. No período pós-independência, muitas vezes herdaram diretamente as concessões das antigas companhias coloniais (BP na Líbia, Elf em Gabão e Congo-Brazzaville). O modelo “Production Sharing Agreement” (PSA) parecia moderno, mas na prática manteve o controlo estrangeiro.

Exemplo paradigmático: o caso Cabinda (Angola). Apesar de produzir 60 % do petróleo angolano, Cabinda continua uma das regiões mais pobres do país e com movimentos separatistas ativos – tema que já abordámos em Angola Contra o Domínio Português e nas sequelas neocoloniais.

Gás Natural: A Nova Fronteira (e os Novos Conflitos)

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Nos últimos 15 anos, enormes descobertas de gás na bacia do Rovuma (Moçambique), no offshore da Tanzânia, Senegal, Mauritânia e, mais recentemente, na Namíbia transformaram o mapa energético. O projeto Mozambique LNG (TotalEnergies) e Coral Sul FLNG (ENI) deveriam trazer milhares de milhões. Em vez disso, trouxeram o grupo jihadista Ahlu Sunnah Wal Jammah a Cabo Delgado, deslocamento de centenas de milhares de pessoas e adiamento de projetos.

O padrão repete-se: investimento estrangeiro maciço → falta de conteúdo local → ressentimento popular → insegurança → mais militares estrangeiros → ciclo vicioso.

Urânio e Energia Nuclear: O Caso Niger

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O Níger é o quarto maior produtor mundial de urânio. A empresa francesa Orano (ex-Areva) explora as minas de Arlit e Akouta desde os anos 70. Resultado: contaminação radioativa das águas, câncer em níveis altíssimos entre trabalhadores e população local, e o país continua entre os cinco mais pobres do planeta. Quando em 2023 o governo militar expulsou as tropas francesas, a primeira medida foi renegociar os contratos de urânio. A Europa tremeu – 25 % da sua energia nuclear depende do Níger.

Hidrelétricas: Das Promessas da Inga à Realidade

A Rep. Dem. do Congo possui o maior potencial hidrelétrico do mundo – a barragem de Inga, se totalmente desenvolvida, poderia fornecer energia a metade do continente. No entanto, sessenta anos depois da independência, menos de 10 % da população congolesa tem acesso à eletricidade. Projetos como Inga III continuam adiados por corrupção e interesses estrangeiros.

Entretanto, a Etiópia construiu a Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD) quase sozinha (com financiamento chinês), mostrando que, quando há vontade política, África consegue.

A Revolução das Renováveis: Finalmente uma História Diferente?

Nos últimos dez anos, algo mudou. Marrocos lidera com o complexo solar Noor (580 MW, o maior do mundo em 2019), África do Sul tem o programa REIPPP que já instalou mais de 6 GW eólica e solar, Quénia tem o parque eólico de Lake Turkana (310 MW), o maior de África.

Mas atenção: mesmo nas renováveis há armadilhas. Muitos projetos são desenvolvidos em modelo IPP (Independent Power Producer) com garantias de compra em dólares por 20-25 anos, transferindo risco cambial para os Estados. E as comunidades locais continuam, muitas vezes, sem luz.

China, Rússia, Turquia, Índia, EUA: Todos Querem um Pedaço do Bolo Energético

  • China: já financia e constrói mais de 40 % das novas centrais em África.
  • Rússia: Rosatom assinou acordos nucleares com Egipto, Etiópia, Ruanda, Gana.
  • Turquia: explora gás na Somália e na Líbia.
  • Índia: ONGC Videsh em Moçambique e Sudão do Sul.
  • EUA: ExxonMobil e Chevron voltaram em força à Guiné Equatorial e Namíbia.

A nova “scramble for Africa” já não é por territórios, mas por contratos de 30-40 anos de exploração de recursos energéticos.

O Futuro: Soberania Energética ou Nova Dependência?

Em 2025, a Agência Internacional de Energia prevê que África poderá ter 60 % da capacidade solar global instalada até 2050 se os investimentos continuarem. Mas para que isso se traduza em desenvolvimento real são precisas três coisas:

  1. Conteúdo local obrigatório (fabricação de painéis, turbinas, cabos em África).
  2. Financiamento concessional e em moeda local.
  3. Governação transparente e participação das comunidades.

Alguns países já perceberam: Ruanda fabrica drones e painéis solares, Marrocos tem a maior fábrica de concentradora de painéis da África, Nigéria lançou em 2024 o seu primeiro fundo soberano de lítio e minerais críticos.

Perguntas Frequentes

P: A África é realmente rica em recursos energéticos?
R: Sim. Além do petróleo e gás, tem 40 % das reservas mundiais de cobalto, 30 % de manganês, enormes quantidades de lítio, terras raras, e o maior potencial solar do planeta (10 TW).

P: Porque é que a maior parte dos africanos não tem luz em casa se o continente exporta tanta energia?
R: Porque a quase totalidade da produção é para exportação (petróleo bruto, eletricidade para mineradoras). Menos de 50 % da população subsaariana tem acesso à eletricidade em 2025.

P: As renováveis vão resolver o problema?
R: Só se forem projetos de raiz africana ou com forte componente local. Caso contrário, corremos o risco de trocar a dependência do petróleo pela dependência de painéis chineses ou europeus.

P: Qual o país africano mais avançado em energia limpa hoje?
R: Marrocos (quase 40 % da eletricidade renovável), seguido pela África do Sul, Quénia e Egipto.

Quer perceber como tudo começou? Comece pela nossa série sobre a Exploração dos Recursos Naturais e Exploração do Petróleo e Gás Natural. E não perca os artigos sobre Energia Renovável na África e Neocolonialismo e Dependência na Política.

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A história da energia em África é a história do próprio continente: imenso potencial, imensas traições e, agora, sinais de um despertar. O futuro depende de quem contar essa história e, sobretudo, de quem a escrever daqui para a frente.

Fique connosco. A próxima revolução energética africana já começou – e nós vamos contá-la em primeira mão.