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Colonização

A exploração das reservas de gás natural na África

Publicado em 24 de novembro de 2025

A exploração das reservas de gás natural na África

Descubra como as gigantescas reservas de gás natural da África – de Moçambique à Nigéria, passando pela Argélia e Tanzânia – estão a transformar economias, a atrair potências estrangeiras e a reacender velhas feridas coloniais. Um olhar profundo e sem filtros sobre oportunidades, corrupção, impactos ambientais e o que realmente significa “desenvolvimento” para os africanos.

A África possui hoje quase 8% das reservas comprovadas de gás natural do planeta, mas a sua exploração intensiva é um fenómeno relativamente recente. Nos últimos 15 anos, descobertas colossais no Rovuma (Moçambique), no offshore da Mauritânia-Senegal, na Tanzânia, na Nigéria e até no norte de Marrocos colocaram o continente no centro da corrida energética mundial. No entanto, quem lucra realmente com esta riqueza milenar que repousa debaixo dos pés de populações muitas vezes pobres?

Este artigo é uma viagem longa e sem rodeios por essa realidade – desde os tempos em que os primeiros humanos já caminhavam sobre estas terras ricas em recursos (África: o berço da humanidade), passando pela era colonial que abriu caminho à extração predatória (Exploração dos recursos naturais), até ao neocolonialismo energético dos dias de hoje.

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Segundo os últimos dados da BP Statistical Review e da African Energy Chamber, os países com maiores reservas comprovadas são:

  1. Nigéria – 5,8 trilhões de m³ (líder absoluto)
  2. Argélia – 4,5 trilhões de m³
  3. Moçambique – 2,8 trilhões de m³ (as descobertas da Bacia do Rovuma mudaram o jogo)
  4. Egito – 2,2 trilhões de m³ (campo Zohr, o maior do Mediterrâneo)
  5. Líbia, Angola, Tanzânia, Mauritânia/Senegal (projeto Greater Tortue Ahmeyim) e, mais recentemente, Namíbia e África do Sul (Bloco Orange Basin) também entraram no mapa.

Estes números não são estáticos: novas descobertas acontecem todos os anos.

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A exploração sistemática de recursos energéticos em África não começou com o gás, mas com o petróleo. Já no período colonial, potências europeias desenharam fronteiras pensando no acesso ao subsolo (Conferência de Berlim e a partilha da África). Quando o gás natural ganhou relevância global (anos 2000), as mesmas lógicas permaneceram as mesmas: contratos leoninos, corrupção, violência e pouca transferência de riqueza para as populações.

Hoje, as empresas que dominam o setor são as mesmas de sempre – TotalEnergies, ENI, ExxonMobil, Shell, BP, Chevron – agora acompanhadas por players chineses (CNPC, CNOOC), russos (Gazprom, Rosneft), qataris (QatarEnergy) e até turcos.

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Em 2010-2013, Anadarko, ENI e Exxon descobriram na bacia do Rovuma mais de 75 trilhões de pés cúbicos de gás – uma das cinco maiores descobertas do século XXI.

O governo moçambicano sonhou com uma “Qatar de África”. Criou-se a expectativa de milhares de milhões de dólares em receitas. Mas a realidade foi outra:

  • Ataques jihadistas em Cabo Delgado desde 2017 (mais de 4 000 mortos e quase 1 milhão de deslocados)
  • Projecto da TotalEnergies parado durante quase 2 anos
  • Contratos assinados com cláusulas de confidencialidade e estabilização fiscal de 30-40 anos
  • Receitas previstas só começarão a entrar significativamente a partir de 2027-2028

Resultado? O Estado já contraiu dívidas gigantescas (a famosa “dívida oculta”) esperando o maná do gás que ainda não chegou.

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A Nigéria é o exemplo mais trágico. Desde os anos 1950 que extrai hidrocarbonetos. Tem a maior economia da África… e 40% da população vive com menos de 2 dólares por dia. O Delta do Niger está destruído ambientalmente, comunidades pescadoras perderam os seus meios de subsistência e grupos armados continuam a sabotar infraestruturas.

O gás natural nigeriano é maioritariamente queimado (flaring) ou reinjetado – desperdiça-se uma riqueza enquanto a população não tem electricidade.

Argélia e Egito: os “velhos” que ainda mandam

A Argélia vive do gás desde os anos 1960 e conseguiu criar uma classe média, mas sofre com a dependência extrema (98% das exportações). O Egito virou-se para o gás do Mediterrâneo (campo Zohr) e hoje já exporta GNL para a Europa, aproveitando a crise Rússia-Ucrânia.

O novo “scramble” europeu pós-guerra na Ucrânia

Desde 2022, a Europa desespera por alternativas ao gás russo. Resultado:

  • Itália assinou acordos gigantes com Argélia, Congo-Brazzaville e Angola
  • Alemanha fez parcerias com Senegal e Namíbia
  • França reforçou presença na Mauritânia e Moçambique
  • Até a pequena Portugal investiu no Rovuma

A narrativa mudou: já não é “ajuda ao desenvolvimento”, é “parceria energética estratégica”. Na prática, os contratos continuam a favorecer as multinacionais.

Impactes ambientais e sociais: a factura que ninguém quer pagar

  • Comunidades deslocadas sem compensação justa (Cabo Delgado, Nigéria, Tanzânia)
  • Destruição de mangais e áreas de pesca (Moçambique, Senegal)
  • Emissões de metano – o gás natural é vendido como “transição”, mas os vazamentos são gigantescos
  • Conflitos armados alimentados pela luta pelo controlo das receitas (Cabo Delgado, Delta do Niger)

A maldição dos recursos ou má governação?

Muitos repetem a frase “maldição dos recursos”. Mas países como o Botswana (diamantes) ou a Noruega (petróleo) mostram que é possível gerir bem. O problema africano chama-se, acima de tudo, corrupção, falta de transparência e contratos assinados em desfavor do Estado.

O que falta para que o gás beneficie realmente os africanos?

  • Renegociação de contratos (Moçambique já começou a falar nisso)
  • Criação de fundos soberanos (como o do Botswana ou o do Gana com petróleo)
  • Conteúdo local obrigatório (emprego, formação, empresas nacionais)
  • Transparência total (publicação de todos os contratos – EITI)
  • Uso do gás para electrificação interna em vez de só exportar)

Perguntas Frequentes

P: O gás natural é mesmo uma energia de transição?
R: Para a Europa, sim. Para África, muitas vezes é só mais uma matéria-prima que sai bruta e volta cara (electricidade ou fertilizantes importados).

P: Moçambique vai tornar-se rico com o gás do Rovuma?
R: Só se renegociar contratos, investir as receitas em educação e saúde e evitar a corrupção. Caso contrário, será mais um caso de “riqueza debaixo da terra, pobreza em cima”.

P: A China está a comprar todo o gás africano?
R: A China é grande compradora (especialmente de GNL angolano e moçambicano), mas a Europa é atualmente o maior destino devido à crise energética.

P: Existe algum país africano que tenha conseguido beneficiar realmente do gás?
R: A Argélia e, mais recentemente, o Egito são os melhores exemplos. O Gana (petróleo + gás) também tem feito um caminho interessante com o seu fundo petrolífero.

Quer saber mais sobre como a exploração histórica de recursos em África e como ela se repete hoje com o gás? Explore os nossos artigos:

  • Exploração do petróleo e gás natural
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  • Neocolonialismo e continuidade
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Porque conhecer o passado é a única forma de não repetir os mesmos erros no futuro.